aliexpress

  • Quando a ordem dos fatores altera profundamente a percepção do usuário

    Desde que nosso governo decidiu levar a sério as próprias leis em relação a taxação de produtos importados, especialmente aqueles vindos da China, dando origem ao programa remessa conforme, nós começamos a ver as taxas que deveríamos pagar para adquirir aquele produto já na hora da compra, não sendo mais possível apelar para a sorte, o acaso e a boa vontade dos fiscais da receita como fizemos por anos e anos nesse tipo de compra.

    Se antes a taxação (ou a inexistência dela) era imprevisível, agora temos diretamente no carrinho virtual o quanto vamos pagar e a certeza de que teremos que pagar. E é muito interessante vermos como cada plataforma trata essa informação e que tipo de emoções ela evoca em nós, usuários, dependendo da forma como elas são apresentadas.

    O caso da AliExpress

    A AliExpress é sem dúvidas um dos grandes “agraciados” pelo Remessa Conforme. Por anos o marketplace vendeu produtos que entravam quase que sem custo algum em território brasileiro e tudo isso praticando preços absolutamente agressivos em produtos de qualidade, com design atraente e para todo tipo de utilidade. Com o Remessa Conforme, a brincadeira, digamos, ficou um pouco menos atrativa, pois agora temos o custo dos impostos ali e a obrigatoriedade de pagá-los. Mas ainda assim, o que vemos em evidência aqui?

    Acontece que mesmo apresentando o valor em impostos, o preço do base do produto continua ali em evidência, que é muito mais atrativo para o consumidor que o valor real a ser pago, ainda mais pensando em um contexto que os impostos são praticamente 50% a mais no valor do produto, quando não é quase o dobro do preço. Isso induz o usuário a navegar pelo site, se interessar pelo produto, adicioná-lo no carrinho junto com outras coisas e, somente ao chegar no final do processo de compra, se deparar com o real valor da “brincadeira”.

    Por experiência própria, ainda que eu fique atento ao valor dos impostos, me sinto enganado quando chego na hora de pagar e vejo que o valor é bem mais alto do que aquele preço em evidência na hora das escolhas me fez parecer. E no fim, você acaba querendo tanto aquele produto que pode até decidir finalizar a compra mesmo assim, mas a sensação causada no usuário não é a ideal. E pior, pelo menos até o momento em que escrevo esse texto, há produtos que não trabalham com essa automação da taxa dentro da plataforma (que permite isso). Aí você compra um carrinho com várias bugigangas, achou que pagou todos os impostos, os produtos começam a chegar por aqui e vem o imposto surpresa em um deles.

    Na Amazon, o contrário

    Já na Amazon, a coisa muda de figura. Compras internacionais na Amazon sempre foi algo um tanto mal resolvido. Em produtos internacionais, é exibida aquela mensagem de “impostos incluídos, você não terá custos extras”, mas muitas vezes você tinha custos extras sim. Não foram poucas as vezes em que ouvi de colegas que caíram nessa e tiveram que pagar impostos para receber seus produtos, embora na maioria das vezes os vendedores tenham sido muito simpáticos em ou mandar o valor dos impostos ou estornar o valor sem reaver o produto. Isso ameniza, mas não torna a experiência menos ruim. Também havia a mensagem dizendo que “poderiam ter custos”, mas essa aparecia menos. Resumindo: era loteria, igualzinho a experiência antiga com a concorrente chinesa.

    E é claro que o Remessa Conforme também impactou a operação da empresa de Bezos em terras tupiniquins. Mas há uma diferença fundamental na abordagem aqui em relação ao que vimos na AliExpress:

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    Ao realizar uma compra internacional na Amazon, somos apresentados a mesma mensagem do “você não terá custos extras”, e nos é exibido o preço real e final do produto, já incluindo impostos. Acontece que isso passa completamente despercebido em um primeiro momento. Você só saberá que está pagando o imposto na etapa seguinte do processo de compra, já na finalização da mesma. Se na AliExpress a surpresa é que o valor aumenta, aqui a surpresa é que o imposto já está contido naquele valor, mesmo que ele represente 1/3 do total como foi em nesse caso do print. Diferente da sensação de ter sido enganado (ou se enganado), aqui a sensação final é de alívio, algo como “ah, já está embutido o imposto” naquele preço que você já se convenceu a pagar na escolha do produto. No máximo você vai se revoltar com o quanto está pagando de imposto, a mesma sensação ao pegar a notinha do supermercado que separa direitinho quanto você tá pagando e em que.

    Padrões enganosos e a escolha por práticas razoáveis

    O uso de “padrões enganosos” ganhou notoriedade nos últimos tempos especialmente com a popularização de produtos e serviços digitais, principalmente aqueles com algum tipo de assinatura. Sabe aquele serviço que você assinou facilmente mas tem dificuldade de cancelar, ou o uso de chantagem verbal para induzir você a desistir de cancelar ou de não continuar um processo de compra? Esse tipo de abordagem dentro de interfaces digitais tem gerado debates nas comunidades de produto, dando origem esse site (que vale a pena ver).

    Fruto de métodos agressivos de conversão e modelos de negócio, digamos, um tanto nefastos, essas artimanhas passam por cima de qualquer boa vontade que o designer tenha de tornar as coisas mais razoáveis para os usuários. Mas em alguns casos, é possível argumentar que nem sempre essas práticas nefastas vão garantir o aumento ou a manutenção do ticket médio de um produto, na verdade, eles poderão gerar um efeito contrário. Os casos que narrei acima nos mostram que é possível garantir uma boa experiência ainda que a notícia a dar não seja das melhores (nesse caso, a taxa a ser paga).

    Embora isso possa ser uma opinião muito pessoal, eu acredito que o explícito é melhor que o implícito ou mesmo o invisível. Embora a AliExpress em nenhum momento seja omissa em relação às taxas, ela se utiliza de contrastes visuais para que o preço base do produto prevaleça e até passe despercebido por olhares desatentos. Podemos até discutir sobre o quão ruim deve ser a visualização do texto sobre as taxas em determinadas telas e na visão de alguns usuários, dadas às questões de contraste entre o cinza e o fundo branco. Nesse aspecto, a Amazon parece estar escondendo a informação inicialmente, pois está apresentando o preço cheio logo de cara, o que pode ser interpretado como um padrão enganoso, mas não há nada de enganoso em mostrar explicitamente o que deverá ser pago, e o usuário entrará em processo de compra sabendo disso, não tendo em nenhum momento de sua jornada de compra algo que o desabone, como o pagamento de uma taxa que pode não ter visto durante a seleção do produto.

    Talvez, o lugar comum ideal seja a apresentação do preço base e das taxas com a mesma evidência, ambos juntos ali na tela de apresentação do produto. Mas a coisa ficaria estranha demais e visualmente lamentável. A apresentação do preço cheio a ser pago com o posterior detalhamento torna a jornada de compra mais previsível, ainda que omita inicialmente que aquele preço não se trata do preço original do produto. Se pensarmos do ponto de vista do nosso serviço, nós queremos que o usuário seja feliz em sua jornada e que ele volte depois, ou que ele se delicie com um prato maravilhoso que estava com um ótimo preço no cardápio, mas que se assuste na hora de pagar pois não viu as letrinhas miúdas que estavam ali o tempo todo? Essa, sem dúvidas, é a pior das experiências, e se pudermos evitá-la, certamente causaremos uma impressão melhor para nosso serviço.

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    Esse texto acabou saindo mais longo do que achei que seria, mas acho que esse monólogo das minhas experiências pessoas rendeu bons questionamentos para mim, e espero que para vocês também.

  • Os Xeon do AliExpress e a MetaReciclagem

    Uma das retomadas na minha vida esse ano foi ter voltado a acompanhar o mercado de hardware, já que precisei montar um computador de mesa para trabalhar e não fazia isso já tinha alguns bons anos. Hoje, como muitas coisas da vida, é muito fácil acompanhar esse mercado via canais de Youtube, através de análises, notícias e tutoriais que tem seu valor inclusive como entretenimento. E assim como outros segmentos que cobrem produtos de tecnologia, também está presente nesse mercado uma gama enorme de produtos da nossa queridinha chinesa, a AliExpress.

    Produtos de qualidade com preço acessível

    Nos últimos anos, os marketplaces chineses cresceram muito aqui no Brasil, e seguem fortes mesmo com os (des)incentivos fiscais do governo brasileiro. Os famosos produtos BBB, bons, bonitos e baratos, do jeito que o brasileiro gosta. É inegável a qualidade dos produtos chineses e a incrível variedade de opções disponíveis para um mesmo tipo de produto, algo impossível de achar em terras tupiniquins. Mas o assunto desse texto é um tipo de produto em específico: hardwares usados e reciclados, mais especificamente processadores da linha Xeon da Intel.

    Que Xeon da Xuxa é esse?

    Assunto de embates acalourados e trocas de acusações internet a fora, esse é talvez o produto mais inusitado disponível na AliExpress. Xeon é um processador da Intel focado em servidores, ou seja, feito para computadores de grande porte e alto desempenho e são responsáveis por dar vida aos datacenters que executam as aplicações em nuvem que utilizamos no dia a dia. Praticamente tudo, inclusive e muito provavelmente esse site, rodam em cima desses computadores. Acontece que, como todo produto tecnológico, eles também ficam obsoletos e precisam ser substituídos, e é aí que entramos nessa história: para onde vão os processadores descartados? Para o lixo, correto? Não mesmo. Eles são revendidos na AliExpress a preços de pizza. Isso mesmo.

    E sim, eles funcionam muito bem. Via de regra, dados os avançados processos de fabricação, processadores são produtos absolutamente duráveis, difícil ouvirmos casos de que um queimou. E eles possuem até um ecossistema paralelo de placas-mães que, embora sejam novas, são fabricadas a partir de componentes reaproveitados para tornar possível o uso desses processadores em computadores de mesa convencionais, e sim, elas também são baratadas, estando na faixa dos R$200 e 300 reais. Dessa forma, com cerca de 500 reais, você adquire um kit utilizável que inclui processador de alto desempenho, uma placa-mãe e memórias, o suficiente para montagem de um computador para rodar jogos e outras aplicações, o que é pelo menos metade do preço se comparado a plataformas atuais convencionais da própria Intel.

    Estelionatários do Xeon

    E é claro que essas facilidades encontrariam seu espaço em canais de Youtube que monetizam links, algo natural e feito por praticamente qualquer criador de conteúdo hoje em dia. Se você buscar por Xeon em qualquer rede social, verá uma série de vídeos falando desses kits, para o bem e para o mal.

    E mais especificamente na semana que escrevo esse texto, tá rolando uma treta que envolve acusações de canais a outros canais por supostamente recomendar esses produtos ao invés de novos, sem deixar claro que são produtos que tem a origem que tem, apenas para monetizar com as vendas. Em alguns casos, essas críticas beiram o nível do preconceito, da elitização e até uma espécie de culpabilização de quem adquire e usa esses produtos, como se fosse trapaça adquirir um processador de 50 reais que entrega na prática desempenho de um processador de 500 reais novo.

    Nem preciso dizer que tudo isso é uma grande bobabem. Cada um sabe o que faz com seu dinheiro e sabe inclusive o que dá para fazer, pois vivemos em um país que, embora rico, é absolutamente desigual, e muitas vezes esses kits garantem um começo para alguém que quer ter um computador para se divertir ou trabalhar. E aqui começo a entrar em outro ponto nessa história, que julgo importantíssimo e vejo ser pouco abordado pelos canais, que é o aspecto da sustentabilidade.

    Um case indireto de MetaReciclagem

    O que vou falar aqui vai parecer que sou velho, mas na minha juventude, tive formação em um projeto social da área de inclusão digital. E lá, além da formação tecnológica, recebíamos também uma formação humana e aprendíamos a ter um olhar especial para a nossa comunidade, nosso entorno. Por isso mesmo, o termo correto é inclusão Sociodigital. Era importante para nós, além de aprender a lidar com tecnologia, levá-la para aqueles que precisavam, e uma das formas de se fazer isso era através da MetaReciclagem.

    MetaReciclagem é um reaproveitamento do lixo eletrônico com fins sociais, visando promover a inclusão digital principalmente para as comunidades carentes.

    Twiki / UFBA

    A MetaReciclagem parte da necessidade de reaproveitar componentes tecnológicos em uma indústria que avança tão rapidamente que mal conseguimos acompanhar, mas que gera quantidades absurdas de lixo eletrônico. Esse é um conceito que não ouço falar a muito tempo, que parece ter sido esquecido dadas as facilidades atuais, mas que continua absolutamente necessário.

    A solução para quantidade de lixo tecnológico que tende a se acumular devido à crescente voracidade de consumo de aparelhos tecnológicos é o desapego. Doar, compartilhar, consertar e botar para funcionar é o caminho para a ascensão tecno-espiritual.

    Twiki / UFBA

    Existem outros ideais por trás desse conceito, incluindo o uso de Software Livre, a colaboração, aprendizado e claro, um grande senso de solidariedade. Há também uma ideia de apropriação desses componentes, de transformar o que antes era lixo em transformação social. Sei que o caso dos Xeon não é exatamente um case de MetaReciclagem, mas não deixa de envolver alguns desses parâmetros. Afinal de contas, continua sendo o reaproveitamento de componentes que seriam descartados e ganham vida nas mãos de quem precisa.

    Reaproveitamento e sustentabilidade

    Partindo desses princípios, percebemos que os Xeon da AliEpress possui uma dimensão social interessante, ainda que por linhas tortas. Embora exista a figura dos chineses que lucram com a venda desses itens, eles não deixam de promover uma reciclagem importante de produtos que virariam lixo e, ao invés disso, ganham mais alguns anos de utilidade, algo que é muito necessário em um mundo que gera a quantidade absurda de lixo que nós geramos.

    E o fruto dessa reciclagem é a oportunidade de consumidores brasileiros (e de outros países) a acessarem produtos de tecnologia com preço acessível. E embora o padrão seja o uso para entretenimento, e não há nenhum problema com isso, esses computadores podem servir também para fins ainda mais transformadores, como uso para trabalho e estudos, ainda mais pensando em profissões digitais onde a barreira de entrada é muito menor, e isso é mais uma parte da história que nos leva aos bons valores das iniciativas de Inclusão Digital, que é a transformação social.


    Espero que esse texto mude o pensamento daqueles que acham que julgam a aquisição desses produtos por serem “lixo eletrônico”. Isso não é demérito e sim um dos maiores méritos dessa história.


    Referências

    twiki.ufba.br/twiki/bin/view/MetaReciclagem/MetaReciclagem